Presidente da CCJ sondou 4 deputados para definir relator da denúncia contra Temer.

O responsável por escolher o relator da nova denúncia contra o presidente Michel Temer, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), sondou quatro deputados antes de definir Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) para a função.

Na última quinta-feira (28), Pacheco anunciou que Andrada será o responsável por emitir o parecer recomendando o prosseguimento ou a rejeição da denúncia contra Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral).

Pacheco afirmou que, além de Andrada, também chegou a consultar os deputados Evandro Gussi (PV-SP), Marcos Rogério (DEM-RO) e Ronaldo Fonseca (Pros-DF).

"Eu não cheguei para nenhum deles e falei: 'Você quer ser o relator? Eu te coloco'. Mas conversei sobre a denúncia, perguntei: 'O que acha? Como acha que tem que ser o perfil do relator?', para ver se a pessoa está disposta ou não. É um processo de análise", disse.

Pacheco afirma que Bonifácio Andrada foi escolhido por ser, na avaliação dele, um advogado experiente, o que respeita o perfil buscado para o posto. "Não posso ficar à mercê de partido político", disse. "Não foi para atender ninguém, não foi para desafiar o PSDB", acrescentou.

A escolha de Bonifácio Andrada desagradou parte do PSDB, uma vez que o partido se dividiu na votação da primeira denúncia, por corrupção passiva.

O líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), chegou a pedir a Rodrigo Pacheco que não designasse nenhum integrante da bancada para a relatoria. A solicitação foi ignorada.

Relator governista

A opção feita por Pacheco também foi criticada por parlamentares pelo fato de Andrada fazer parte da ala governista do PSDB. Na primeira denúncia contra o presidente, por exemplo, ele votou no plenário pela rejeição do processo e "a favor das instituições e do progresso do Brasil".

Para o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), por exemplo, a decisão de Pacheco pode ser lida como uma "troca de favores" entre o governo e o PSDB. "Acho que foi infeliz a escolha. Não tenho dúvida de que o relator escolhido é 'chapa branca'. Surpresa será se ele recomendar o prosseguimento da denúncia", disse.

Outros parlamentares ouvidos, também avaliaram que a escolha de Andrada "atendeu" ao Palácio do Planalto.

O presidente da CCJ, porém, diz não ter "medo" de que críticos ao governo passem a questionad a relação dele com o presidente Michel Temer.

"Eu integro um partido que tem suas posições no governo. Eu próprio não faço questão nenhuma disso. Eu tenho outro caminho para mim depois que vencer o meu prazo na CCJ, que vou traçar ano que vem. Não sou um cordeiro do Palácio", disse.

Questionado sobre qual "caminho" irá traçar em 2018, Pacheco disse que não poderia comentar o assunto para "não dizerem" que ele usa a CCJ como "palanque eleitoral".

Reação no Planalto

Foi apurado que, antes mesmo do anúncio de Rodrigo Pacheco sobre a relatoria, o Palácio do Planalto já esperava a escolha de um parlamentar "pró-governo".

Na primeira denúncia, o presidente da CCJ escolheu Sérgio Zveiter, à época filiado ao PMDB (hoje filiado ao Podemos), que apresentou relatório a favor do prosseguimento do processo ao Supremo Tribunal Federal.

Sobre a votação da nova denúncia na CCJ, auxiliares de Temer dizem que, como os votos dos parlamentares da comissão já são conhecidos, é possível mapear o posicionamento deles e, com isso, prever que o governo pode ter o número de votos necessário para rejeitar a nova acusação contra o presidente.

Asessores de Temer acrescentam ainda que, diante desse cenário, eles avaliam que Rodrigo Pacheco buscou "reabrir o canal de diálogo" com o Planalto, mesmo que não faça parte da "tropa de choque" do Planalto que atua na Câmara.

'Constrangimento'

Presidente do PSDB de Minas Gerais, o deputado Domingos Sávio diz que a escolha de Andrada representa, na opinião dele, um "constrangimento" para o partido no âmbito nacional. Isso porque, argumenta, expõe ainda mais a divisão na bancada tucana sobre o apoio ao governo Temer.

Domingos Sávio acrescenta que a relatoria de Bonifácio Andrada também cria desgaste junto ao eleitor mineiro. O PSDB tem tentado lidar com os impactos das investigações e do afastamento do senador e ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG), principal nome tucano no estado.

"É um constrangimento para o PSDB relatar a denúncia, porque a bancada do partido está dividida. Mas respeito a decisão do Rodrigo e confio na competência do Bonifácio para fazer o parecer", disse Domingos.

O deputado afirmou, ainda, que questionou Pacheco sobre a indicação de Andrada. Segundo Domingos Sávio, a opção contrariou um pedido de Aécio Neves a Pacheco, há cerca de duas semanas. Outros dois deputados aliados de Pacheco fizeram o mesmo relato.

Aécio, dizem deputados tucanos, não gostaria de ver mais um nome do PSDB mineiro nos holofotes por um tema impopular.

Conforme a colunista do G1 Andréia Sadi, Temer discutiu com o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), formas de auxiliar Aécio a retornar ao mandato de senador.

Nos bastidores, o socorro ao tucano é visto como uma forma de manter a ala governista do PSDB, liderada por ele, fiel a Temer na votação da denúncia.